O cooperativismo possuía diferenciais extremamente claros. O cooperado conhecia as pessoas da agência, participava das decisões, sentia que fazia parte de algo maior e percebia uma proximidade que dificilmente encontrava em instituições financeiras tradicionais.
Contudo, o mercado mudou. As cooperativas cresceram, juntas possuem R$ 900 bilhões em ativos, os sistemas cooperativados ganharam status de banco, figuram entre os 8 maiores bancos do Brasil. Houve uma evolução gigantesca em números e presença de mercado. Antes era algo restrito as áreas mais rurais, mas hoje não mais. Chegaram aos grandes centros urbanos e metrópoles, oferecendo qualidade e quantidade tão boa ou até melhor que bancos tradicionais.
Sicredi possui hoje mais de 9 mil unidades pelo Brasil, distribuiu de sobras (lucro) aos cooperados R$ 3,4 bilhões em 2025; Sicoob está presente em mais 330 municípios brasileiros e 9,7 milhões de cooperados; a Unicred tem mais de 50 mil médicos em seu sistema com R$ 18,7 milhões em crédito para esse público em especial; Cresol 42 bilhões em ativos, 939 agências em 19 estados.
A tecnologia avançou, os aplicativos ficaram mais modernos, os produtos financeiros se multiplicaram. E justamente por isso surge uma pergunta importante:
O cooperativismo ainda é um diferencial competitivo ou estamos apenas vivendo da reputação construída ao longo dos anos?
A resposta pode incomodar algumas pessoas.
O cooperativismo continua sendo um diferencial competitivo, mas apenas quando ele é percebido pelo cooperado.
Porque diferencial que não é percebido deixa de ser diferencial.
Ter o diferencial não basta
Imagine uma empresa que possui o melhor atendimento do mercado, mas seus clientes não percebem isso.
Ou um restaurante que utiliza os melhores ingredientes, mas não consegue transmitir essa qualidade ao público.
Na prática, o diferencial existe, mas não gera valor. Com as cooperativas acontece algo parecido.
Muitas instituições continuam carregando princípios cooperativistas sólidos, mas nem sempre conseguem fazer com que o cooperado perceba essa diferença no dia a dia.
E quando essa percepção desaparece, sobra apenas a comparação de produtos, taxas e serviços. Uma disputa perigosa para qualquer instituição financeira.
O mercado financeiro ficou parecido demais
Hoje praticamente todas as instituições oferecem:
- PIX;
- cartão;
- investimentos;
- crédito;
- aplicativos;
- atendimento digital.
O que antes era diferencial virou obrigação.
O problema é que algumas cooperativas tentaram competir com bancos tradicionais copiando exatamente o que os bancos fazem.
E isso criou um risco silencioso.
Quando a cooperativa passa a parecer apenas mais um banco, ela começa a perder justamente aquilo que a tornou diferente.
Não estou dizendo que a modernização é um erro. Pelo contrário. A tecnologia é fundamental.
Porém precisamos pensar se modernizar deve significar abandonar a identidade.
O cooperado quer eficiência, mas também quer pertencimento
Existe uma palavra que poucas instituições financeiras conseguem oferecer de forma genuína: Pertencimento. O cooperado não é apenas cliente. Ele é parte da cooperativa.
Parece um detalhe pequeno. Mas não é.
Quando bem trabalhado, esse conceito cria algo extremamente poderoso: vínculo. E vínculos geram permanência.
Pessoas permanecem onde se sentem valorizadas. Pessoas permanecem onde acreditam que são importantes.
Pessoas permanecem onde percebem que existe interesse genuíno em ajudá-las a crescer.
Esse continua sendo um dos maiores diferenciais do cooperativismo. A questão é: sua cooperativa ainda consegue transmitir isso?
O diferencial não está no discurso
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Muitas instituições falam sobre relacionamento. Muitas falam sobre proximidade.
Muitas falam sobre cooperativismo. Mas o cooperado não avalia discursos.
Ele avalia experiências.
Ele percebe se é lembrado apenas quando existe uma campanha para vender produtos, ele percebe se suas necessidades são compreendidas, se os colaboradores conhecem sua realidade e principalmente se existe interesse genuíno em ajudá-lo.
O diferencial cooperativista não é construído em folders, banners ou campanhas publicitárias. Ele é construído em cada interação.
O maior risco para o cooperativismo
Talvez o maior risco para o cooperativismo moderno não seja a concorrência dos bancos. Muito menos as fintechs, ou ainda os bancos digitais. O maior risco seja esquecer aquilo que fez o cooperativismo crescer e se tornar igual ao que mais buscava não ser antes. Algo distante do acesso do cooperado.
Porque distância afasta. Afastamento causa esfriamento e esfriamento, nesse mercado leva a padronização e padronização, transforma o produto em commodity (mercadoria comum) e commodity tem preço tabelado. O diferencial morre e entra a gerra de preços.
Porque quando uma cooperativa perde sua identidade, ela passa a competir apenas através de produtos. E produtos podem ser copiados.
Já o relacionamento verdadeiro, pertencimento e confiança são muito mais difíceis de replicar.
Então o cooperativismo ainda é um diferencial competitivo?
Sim, mas não pelo simples fato de existir. Ele é diferencial quando é vivido. Quando é percebido. Quando faz parte da cultura da instituição.
Quando o cooperado sente que não está diante de apenas mais uma instituição financeira.
Eu sei que com uma alta rotatividade de profissionais, as vezes é difícil manter todos sintonizados com a cultura e para isso que existem treinamentos. Por isso é importante que sua cultura seja viva e presente, passada de equipe a equipe por profissionais que compreendem que uma cooperativa pode até oferecer serviços de banco, mas é muito mais que um banco.
Uma cooperativa é um estilo, uma forma, uma cultura, algo que nasceu para ser acessível, próximo e pertencente a nós cooperados.
As cooperativas que compreenderem isso continuarão crescendo.
As que acreditarem que o diferencial cooperativista é automático podem descobrir tarde demais que reputação passada não garante vantagem futura.
Porque no final das contas, o cooperativismo continua sendo um enorme diferencial competitivo para quem consegue transformá-lo em experiência real para o cooperado.
E sua equipe entende mesmo a cultura do cooperativismo?
Ricardo Veríssimo é palestrante de vendas, empreendedorismo e liderança, realiza palestras e treinamentos para cooperativas, bancos, financeiras, construtoras, incorporadoras e empresas em todo o Brasil. Saiba mais em: ricardoverissimo.com.br